domingo, 11 de novembro de 2007

(Re)Descobrir Amarante (V)



  • Na 1.ª foto temos uma perspectiva da Rua de S. Pedro, uma rua íngreme, como se pode ver, e que, descendo-a e virando à esquerda, nos leva à Biblioteca Municipal de Amarante. Ainda na 1.ª foto, repare-se na casa do lado esquerdo. Nela nasceu Teixeira de Pascoaes, em 2 de Novembro de 1877. Na parte frontal da casa encontramos uma placa evocativa deste acontecimento (2.ª foto), e que nos faz olhar para aquela casa de outra forma.
  • Na verdade, muitas crianças da paróquia de S. Gonçalo lembrar-se-ão daquela casa, não tanto por ali ter nascido o mais conhecido poeta amarantino, mas por lá terem tido catequese e brincado enquanto esperavam pelos seus pais. Aliás, faço parte dessa geração! Lembro-me dos dias de chuva em que ficava retida no rés-do-chão até que me viessem buscar de carro; lembro-me dos dias de sol em que um calor agradável ajudava ao encontro catequético; lembro-me dos interessantíssimos debates estimulados pela minha catequista D. Cândida, numa sala do fundo no 1.º andar, os quais ainda agora relembro e cuja liberdade de pensamento ainda tento manter; lembro-me da alcatifa que acompanhava as escadas e de as percorrer num ápice quando já ia atrasada; lembro-me de conhecer amigos que ainda mantenho.
  • E é precisamente por esta casa povoar a minha memória e por achar que muitos amarantinos não sabem o significado da mesma, que decidi postar fotos dela.
  • Esta casa, antes de servir de sítio para a catequese, era residência paroquial do Sr. Padre Morais, que entretanto foi substituído nestas lides. Já quando lá tinha catequese, era notória a necessidade de restauração da casa, sendo que, pelo menos do que tenho conhecimento, não foi feito nada desde então. Pelo que me foi transmitido, sob pena de estar a difundir uma informação errada, parece que a Câmara ou a Junta de freguesia, pretendiam comprá-la. Espero sinceramente que seja restaurada e que, quem sabe, sirva um dia de espaço para tertúlias culturais, que diga-se de passagem, muito escasseiam agora por estas bandas.
  • Falando, em traços muito gerais, de Teixeira de Pascoaes: Joaquim Pereira Teixeira de Vasconcelos, é o seu nome completo, nasceu na data acima referida, e morreu a 14 de Dezembro de 1952. Foi o filho mais velho do Conselheiro e Deputado da Nação, João Pereira Teixeira de Vasconcelos, estudou no liceu de Amarante (onde um dia um professor de português depois de lhe ter corrigido um ponto da disciplina lhe disse que ele nunca haveria de saber escrever duas palavras em bom português! LOL), e depois prosseguiu estudos na Universidade de Coimbra, nos cursos de Letras e de Direito, tendo aberto um escritório de advocacia na Rua da Vitória, no Porto. Contudo, ao fim de pouco tempo (cerca de 10 anos), fechou o escritório (pelo que parece por ter conseguido a absolvição duma rapariga acusada de infanticídio) e fixou-se na casa paterna, em Pascoaes.
  • Foi um dos mais notáveis representantes do Saudosismo e com António Sérgio e Raúl Proença foi um dos líderes do chamado movimento da “Renascença Portuguesa” e lançou em 1910 no Porto, juntamente com Leonardo Coimbra e Jaime Cortesão, a revista “A Águia”, principal órgão do movimento.
  • Para finalizar, deixo uma estrofe dum poema de Teixeira de Pascoaes, sobre a sua aldeia, mais concretamente, no mês em que estamos:
"E, em Novembro, os fiéis pedindo à nossa porta.
O velho, o órfão, a viúva...
Magros perfis de dor, à fome e à chuva,
Sobre a terra morta.
Lá vão, em ermos grupos pobrezinhos.
E rezam orações mais tristes que as do vento...
Alguns são aleijadinhos e ceguinhos
De nascimento...
Além, no presbitério,
Descobre-se pequeno cemitério,
Negro de gente humilde que murmura...
Piedosas flores,
De maceradas cores,
Alegram vagamente aquela nódoa escura,
E pousam sobre as covas...
Umas, velhinhas, com a cruz tombada,
Cheias de cinza anónima, esquecida...
Estas, de terra fresca, a branquejar, são novas;
Têm a efígie do morto intacta e perfumada;
Ao pé das outras - vede! - ah, quase que têm vida!"

1 comentário:

João Fachana disse...

Mas tu estás a fazer alguma monografia de Amarante?